Até o fim dos tempos

setembro 9th, 2011 § Deixe um comentário

Eu o vi na rua outro dia. Passando apressando na rua. E me escondi entre as páginas de uma revista que estava lendo. Uma revista de fofoca. Que ridícula essa cena, eu atrás de uma revista de celebridades, todo vermelho e com o coração quase na garganta. Ele nem deve ter notado. Eu estava no ônibus, atrasado para o trabalho e lendo sobre… mentira, nessas revista eu apenas vejo as fotografias, não as leio. Geralmente eu carrego um livro comigo, mas agora proibiram livros no trabalho e, então, eu nem os tiro de casa. O ônibus parou no sinaleiro fechado e eu fiquei observando os pedestres. Avaliando os estranhos da janela de um ônibus. Rindo de uma criancinha levando bronca e sua mãe disfarçando a irritação. Esse é o único prazer de andar de ônibus: assistir a vida. Será que alguém viu a minha reação ao ver ele? Será que riram de mim também, ao assistir eu encolhendo no banco duro do 177? E para onde será que ele ia com tanta pressa? Não posso começar pensar nessas bobeiras! Há tempos que não o vejo perambulando pela cidade. Talvez ele tenha se recolhido por mim. Também com medo de me ver pela janela de um ônibus – ou carro – qualquer. Talvez ele… não, não há talvez nessa hitória. Não há mais nada. Prefiro ficar aqui lendo os resumos das novelinhas fracas da rede globo do que pensando nele. Meu amor…

Tenho que confessar algo, não estou certo, mas acredito ter visto ele dentro de um ônibus. Não vi seu rosto, mas o cabelo, os dedos, a cor da camiseta, só pode ser ele. E era o 177, ele sempre ia para minha casa com o 177. Talvez ele estivesse entediando lendo aquela revista. Coisas de fofocas, sabe, não é o estilo dele. Se o sinal não fosse tão rápido eu teria visto os olhos dele e tido a certeza que ele ainda anda pela cidade. Quero ter certeza, pois eu preciso saber se ele está bem. E se ele estivesse com outra pessoa do seu lado segurando sua mão? Talvez ele escondia um beijo atrás daquela revista. Beijando outro rapaz em público. Aquela revista só pode ser de seu novo namorando. Sujeitinho sem cultura! Mas quem disse que ele está namorando? Eu já estou pirando aqui sem sequer saber se aquele cara no ônibus era realmente ele, meu namorado. Meu… ex-namorado.

Eu prometi  que iria parar com esses questionamentos, esse negócio de “e se…” toda hora. Lamentações. Eu fugi para esquecê-lo, mudei de cidade, evitei amigos em comum e veja só onde estou! De novo em seu labirinto. Nem faz tanto tempo assim que tudo teve fim. Mas eu me consertei, estou bem agora, no entando sinto que devo me redimir, sei lá. Não quero arriscar vê-lo de verdade no 177 ou em qualquer outra linha que seja. É, pode parecer covardia, mas não posso fingir que ele não existe, pelo menos não nessa cidade. Nesse inferno de cidade. Até nas esquinas têm seu nome explícito. Marcas de nós dois. Nas Lojas, nas lanchonetes, nos moteis. Tudo aqui está infectado por ele. E eu preciso mesmo de outro lugar mais limpo. Limpo dele. Preciso esterilizá-lo de mim… mais uma vez.

Depois daquele dia eles não mais se viram. Um no ônibus, e o outro na faixa de pedestre. Tão próximos e assim distantes. Tão sem coragem de estourar o vidro da janela e saltar pelos carros numa tentativa exageradamente romântica de dizer “Eu ainda te amo”. Deve ser para isso que serve aquelas saídas de emergência e, naquele caso, era uma emergência. Mas o “Eu te amo” não foi dito. Foi apenas pensado e ignorado na mesma hora, por dois corações confusos. Ambos seguindo em linhas retas, porém para outro destino. Nenhum deles percebeu, mas foi ali, naquele momento, que eles realmente se separaram. Havia, antes de tudo acontecer, a pureza da esperança. Depois nasceu, no medo, a covardia.

Não se abandona um grande amor. E a história deles, antes dessa cena do ônibus, nem vale a pena ser contada. Não mais. Foi abandonada. Deixada ao descaso. Nem vale dizer que anos e anos se passaram e o único contato que tinham era telepático. Ou pensavam ter. Era o ônibus 177 que os perseguiam por todo o mundo. E não importa se um fugiu da cidade e o outro virou chefe de uma grande empresa. Nada disso importa. O vazio ainda está lá. O barulho do motor do ônibus ainda soa nos ouvidos de quem amou. O maldito ônibus tornou-se um símbolo de amor. Uma mancha. Um barulho alto, chato de ouvir.

Se eu voltar, se eu pensar em colocar meus pés de novo naquela cidade, será que vou resistir? Será que ainda tenho o telefone da casa dele? Eu lembro de cabeça, mas vai saber se ele não trocou o número. A portabilidade facilitando a vida das pessoas. Queria eu, nesse anos todos, ter portado esse sentimento para outra pessoa. Para outro corpo que me acompanhasse. Mesmo eu não o amando cem por cento. Queria eu ter coragem de voltar, mas agora eu tenho outra vida, outros amigos e um amante. Se eu aparecer lá de novo, ele vai pensar que é só por causa dele. E é, no fundo é. Mas posso tentar me enganar. Inventaria uma visita surpresa ao meu pai. O velho nem lembra do meu nome. Que estupidez, por que eu estou pensando nisso uma hora dessas? Por que você me assombra de madrugada?

Me assombra até eu pegar no sono, por favor…

É tão díficil fingir ao lado de outra pessoa. Fingir um sentimento que não sinto a tanto tempo. Aqui estou eu, num motel, passando mais um aniversário de namoro. Gosto de levar meu namorado para lugares mais reservados. Eu não o amo. Eu amo o outro. Por isso é difícil sorrir quando esse aniversário poderia ter sido de um outro relacionamento. E merda! Não é. Eu sempre me enganando e agora, de tão viciado, engano também os outros. Além desse cara nos meus braços eu tenho mais um que trepo nas sextas de tarde. É, sim, tornei-me um canalha. Meu amor de verdade não volta mais, eu sei. Mudou-se de cidade anos atrás. Mudou-se de mim, mas levou toda a minha mobília emocional. Não é justo! Não é justo com ninguém. Parece piada, mas enquanto eu estou aqui, com uma taça de vinho nas mãos, e com meu novo namoradinho excitado, tudo o que posso e consigo pensar é no maldito 177. E em nossos encontros e no dia que eu o perdi de vista. Quando eu não mais o achei na cidade… E após sua partida o 177 parou de circular nas ruas. Nâo entendo a ligação, mas só pode ser aquelas coisas que o Milan Kundera dizia sobre o acaso. Ele foi meu acaso. E eu ainda o amo.

Por obrigação devo criar um final feliz para esses dois. Colocar o 177 nas ruas de novo, como algum tipo estranho de sinal do destino. Seria emocionante apenas mais um encontro, um outro beijo e a compreenção de se ter vivido um grande amor em seu  determinado tempo, e esse sentimento que, hoje, eles consideram amor, não passa de uma boa lembrança juvenil. Hoje, em suas vidas, não há mais espaço para eles como um casal. Acabou. Não se acertariam novamente na mesma cama. Não gostam mais das mesmas coisas. Um gosta de feijoada, o outro de frutos do mar. Um ouve música clássica, já o outro é mais rock alternativo. Um adora esportes, o outro vive nos livros. Mas afinal, não é isso que nos faz amar outras pessoas? Não são as diferenças, defeitos, qualidades, que fortalecem o tal do amor? E amar de verdade não é a superar essas diferenças? Então porque não eles, mesmo tão diferentes, acabarem juntos? Numa casa linda, branquinha, bem ventilada, com um cachorro, duas biccicletas e uma varanda para assistir os dias de chuva…

Eles possuem a chance do reencontro, bastam vencer o orgulho e possivelmente, após esse encontro, a vida tomará o seu percurso natural e os levará até onde o amor suportar, quem sabe, até o fim de suas vidas.

Até o fim dos tempos, como costumavam planejar ainda na juventude, ainda na inocência da paixão…

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