Lembranças…

Descobri que ele não ama a mim. Ele ama a lembrança de mim, em mim. Os anos que vivemos juntos antes, quando a paixão estava no início. Quando não havia tantas dificuldades. Antes de ele conhecer meus defeitos e eu reclamar dos dele.  A lembrança que ficou marcada em mim, ainda que em outro corpo, num rosto mais robusto e adulto. Ele ainda vê o moleque que, em partes, morreu em mim. Não há mais aquela inocência do primeiro amor. Mas eu sou a lembrança, no presente dele, de tudo que se foi. Passou. Sou lembrança de uma casa azul. Do terraço de um prédio. De uma senhora fazendo tricô. De um labrador negro. Do piso branco da calcada. Em mim – ou na lembrança de mim – não há a morte. Há todos aqueles dias suspirando em seus braços.

Embora, devo admitir, que essa forma de amar alguém seja fascinante. Enxergando o parceiro no que mais se admira. Na memória de um amor jovem, sem discussões, atritos e dores. Um amor entre a liberdade de ainda ser solteiro e ocompromisso gostoso de um namoro descomplicado. Ah, é mais fácil amar assim. É, também, saudável. No entanto eu prefiro os atritos de agora. Essas conversas em voz alta que servem para provar que nos mudamos, embora, no fundo, na essência, permanecemos os mesmos. Apaixonados. In love. Dedicando músicas e registrando momentos. Esses somos nós. Hoje mais maduros, mais lesados pela vida – não no mal sentido da palavra.

Memórias, todos nós as temos. As minhas ficam passeando no passado, mas de quando em quando voltam como um temporal para te cobrar atitudes ou mostrar que temos, em nós, as mesmas manias irritantes de antes. Eu ainda erro, mesmo sendo o rosto perfeito moldado naquele passado. E não quero que você, enxergando ele (o eu mais menino), se decepcione com os meus novos defeitos. Com as minhas outras crises. E, também, não quero que você procure em mim as qualidades do passado, eu estou cheio de outras novas, mais excitantes, embora não as mostre com frequência. Veja-me como aquele menino, mas me entenda como o homem que ainda tento ser.

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