Mal Entendido

Ele me viu tirando a foto e se interessou. Uma curiosidade que o fez sair de sua casa em meio a neve e atravessar a rua. Enquanto eu olhava a foto, recém tirada, no meu celular. Depois ele passou duas vezes em frente a janela de casa. Eu nem me toquei. Acendi um cigarro e voltei a ouvir música. Aumentei volume do som e tudo o que se ouvia pela janela era: ” Father Lucifer you never looked so sane, you always did prefer the drizzle to the rain… how’s the lizzies, how’s your Jesus Christ been hanging…”

Percebi ele lá fora me olhando com cara de espanto e gritou: satânico! E eu me assustei, abri a janela e retruquei: qual o problema?

– O problema é que você tirou uma foto minha e está fazendo bruxaria ai na sua casa!

– O que? Você tá surtando!

– Eu ouvi, meu caro, ouvi a canção do seu ritual satânico. Vou chamar a polícia pra acabar com isso agora.

E eu, assustado, gritei: não! Não há necessidade. Acho que houve um mal entendido e se quiser eu posso lhe explicar…

– Explicar o cacete! Vou te ferrar.

Então peguei o celular e falei: ok, vai ligar pra polícia? Pois eu também vou! E vou contar que estou sendo verbalmente abusado por um estranho que está basicamente invadindo a minha casa e privacidade! Dizendo atrocidades sobre a minha pessoa! Acusando-me de loucuras que nunca cometi! Quem é você, meu senhor!? Quem é você!?

O rapaz olhou pasmo, notou a situação que havia criado e se afastou. Atravessou a rua olhando para mim e mudou de ideia. Retornou a minha janela e pediu para eu explicar. Eu mostrei o beck bolado, a capa do cd que eu estava ouvindo, a neve lá fora e depois a foto no meu celular. Ele sorriu e disse: está explicado! Seu drogadinho pervertido! Me bisbilhotando da janela e…

Eu o interrompi e ofereci um trago do beck dizendo: relaxa, querido, não há ninguém aqui te perseguindo. Sequer vi você na janela. Mostrei meu celular e apaguei a foto da neve.

Sorri e novamente ofereci o beck. O rapaz tinha mais problemas do que eu. Eu entendi a sua interpretação de toda a cena. Ri sozinho ainda segurando o beck em sua direção por entre a janela. Ele tomou o cigarro da minha mão tragou duas vezes e foi para sua casa fumando.

No dia seguinte eu o vi na rua e ele acenou e fez sinal de positivo com as mãos. E depois tirou uma foto da minha casa.

Vai entender…

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Café Frio

– Eu ouvi da primeira vez que você falou!
– Então por que não respondeu?
– Porque… Porque eu estava ocupado.
– Ocupado com o que?
– Não me lembro…
– Estava suficientemente ocupado a ponto de não ter tempo para me responder, mas não se lembra o que te ocupava?!
– Eu estava pensando na resposta para sua pergunta, oras.
-Então por qual razão você esperou eu repetir a pergunta três vezes se você já estava pensando na resposta?
– Porque eu havia esquecido a pergunta.
– E como conseguiu se manter tão ocupado com a resposta de uma pergunta esquecida?
– Ok, eu não prestei atenção no que você disse, pronto, satisfeito?
– Não. Não estou satisfeito, pois quero que você preste atenção no que eu digo, mesmo que seja banalidades, até mesmo reclamações, quero que você queira me ouvir mesmo quando estiver ocupado. Só isso. Agora, você quer ou não?
– Quer o que?
– Café, meu amor, café…