Insuportavelmente Amor

Que coisa chata! Ele entra e fala fala fala e não fala nada com nada e não se cala e fala mais alto. Faz barulho de tédio assoprando pra cima como se quisesse assoprar o nariz. Faz barulhos irritantes com a boca. E enche a boca pra falar merda, enche o meu saco, faz “click-click” com a caneta bic de quatro cores que tem na mão, boceja duas vezes seguidas, estala os dedos. Diz que já não aguenta mais isso e que não suporta mais aquilo e continua aqui me dizendo o que fazer e como deve ser feito e por isso e por aquilo mais e mais e mais…

Sai do quarto com passos de elefante, bate a porta, canta no corredor coisas sobre mim e “sobre eu também!” Faz riminhas pra satanizar, faz pirraça e depois se faz de bobo. Volta pro quarto fica com cara de bravo na minha frente, olhando sério para mim, esperando uma brecha, um momento que se escape, um instante de distração, e se corroendo por dentro com o silêncio que faço. Solta um, dois, três palavrões, roe as unhas e cospe, uma a uma, em mim. Me deixa uma, duas semanas sem sexo. Diz que já basta, que “pra mim já chega” e não chega e nunca chega e nem vai chegar lugar algum se continuar se comportando como um menino mimado e burrinho. E abre a janela deixando o vento frio entrar para me incomodar, ele sabe bem como eu sou friorento, e  bate forte a janela ao fechar, depois começa assoviar ou assobiar(ou os dois!) músicas clássicas-chiclete tipo “William Tell Overture: Finale” que  gruda na cabeça e aborrece por dias. E por fim deita na cama e se faz de mudo por apenas alguns vinte e tantos poucos minutos, finge que dorme, mas não dorme e abre os olhos no meio do fingimento para olhar o que eu estou fazendo, se eu estou olhando ele, ali, jogado entre edredons e travesseiros resmungando coisas sem graça e sem fundamento, sua rebelião sem causa e quando não vê muito  sucesso no fingir, respira bem fundo e descobre que “respirar fundo” várias vezes pode ser interpretado como um apelo, um “me socrorra!” ou “pergunte se está tudo bem comigo”, “me dê algum tipo de atenção”, ”me olhe! me olhe! me olhe!”

E antes de ser derrotado pelo cansaço ele começa a debater sozinho, perdido em algum canto do seu universo interior, se deve ou não improvisar um chorinho baixo, umas lágrimas de crocodilo para me comover e quando está quase decidido a chorar, com o nó na garganta e tudo  – agora já no apogeu do seu self-pity– ele acaba dormindo e acorda com um humor surpreendentemente fantástico no outro dia.

Por isso eu não falo, não faço, não olho, nego atenção, finjo que não vejo nada daquele caos particular que ele apresenta como se fosse uma peça premiada de teatro. O teu drama me fascina. Você nessa dança impaciente com a paciência que você tem em discutir com tanta dedicação pequenos detalhes… coisas bobas… e nós dois. Você que agora eu olho enquanto – depois do espetaculo – dorme um sono pesado de quem descansa de verdade, é você quem mora no meu peito. É você quem eu aconchego no meio da madrugada entre os meus braços e abraços. Quando eu te beijo desarcordado no meio de um sonho. É você, meu menino mimado, que eu tento domar, treinar, ensinar, ajudar, amar amar amar! É por você que eu faço silêncio, que eu desapareço, fico quieto sem me manifestar e todas essas redundâncias, eufemismos e palavras repetidas também são por você. Para que assim, você, em meio a sua crise existencial, ou por um minuto de atenção, perceba-se e aprenda-se observando a si mesmo  e por você mesmo. É a minha não reação que vai guiá-lo ao conhecimento de si. Meu silêncio faz você se escutar, se argumentar e entender que eu não sou ninguém para lhe dar lição alguma. Você que é livre para ir e vir, mas prefere ficar sempre, e crescer ao meu lado. Você companheiro que me xinga e se bate e dá soco na parede, depois joga um copo, um prato, uma faca no chão! Você está deixando de ser menino para ser o meu homem. E eu sei que amanhã, quando o teu céu estiver azul bem claro e com uma estrela brilhando entre os seus olhos, quase na testa, você vai compreender que eu estou todo tempo a te olhar. Observando a sua forma de me amar, de se amar e nos amar. Eu sei que as suas tempestades são intensas, mas seu amor é apaziguador.

E quem sabe, qualquer dia desses eu acabo cedendo ao teu draminha barato e vamos dar umas boas risadas, uma dose alta de beijos, depois eu tiro a tua roupa e te como na poltrona e a gente acorda no outro dia com um humor surpreendentemente fantástico.

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