Sobre as coisas do Universo

Outro dia eu estava olhando pra você e percebi quantas coisas nós perdemos esse ano. “Mas também ganhamos” você diria. Eu sou pessimista, você sabe. Nossa esperança era sair desse buraco e correr viver no verde e no fundo, lá no fundo, eu sabia: era a ultima vez que eu te veria. Não há mais verde para confortar, mas eu escolhi esse caminho na cidade de pedra, nesse país cinza e borrado. Hoje vejo pela janela embaçada do onibus os rostos lá na rua passando rápido e tento identificar qual deles é o seu rosto. Quero ver um sorriso e reconhecer você. Mesmo agora sem a idealização do par ideal, mesmo sem a minha companhia e sem interações constantes, eu ainda quero te pegar sorrindo por ai, aparentemente sem motivos. Pois motivos nós tivemos de sobra. E o que vale a pena é fazer as coisas sem motivos. Viver! E, claro, a gente carrega um pouco de dor pelas bifurcações da vida. A corrente do carma se arrasta no ritmo dos meus passos. E eu passo mal sem você. Ou pelo menos passava. Nem sei ao certo o que dizer. A escolha foi minha. E você com as suas lágrimas e a música tocando num canto na minha mente “you don’t know the power that you have with that tear in your hand” e os gritos, os apelos, depois disso foi só medo. E eu temo te ver na rua sorrindo ao lado de um rosto estranho. Outra versão minha. Ou uma fuga, um dublê, ou, para o meu azar, um outro amor. Aquele cara que você conheceu comprando frutas. Aquele hábito de comprar frutas e fazer sucos enquanto eu fumava maconha lendo revistas em quadrinhos. E a gente conversava sobre as coisas do universo. Eu devo ter notado a minha ausência e decidi me afastar de vez. Te ver feliz. Eu era a dor, a ferida sempre aberta, ou o autoflagelo. Causando dor só por causar. Em minha mente sempre foi assim: sobreviver as minhas sabotagens. Eu contra eu, nunca sequer deu empate. Mas eu venci. E você foi descartado. Não por eu não te amar, mas porque aqui só há espaço para um até eu encontrar outra maneira de respirar. Lembra quando eu não conseguia chorar? Passei anos ao seu lado sem derramar uma lágrima, porque eu precisava estar feliz, então não podia ceder ao pranto. Porque eu havia parado de me expressar como antes e me contia, me prendia na ideia do que eu deveria ser ou me tornar. E isso me corroia. Por isso, meu amor, seja feliz. Por mim, seja feliz. E se eu lhe encontrar qualquer dia desses eu te pago um café, compro um cigarro barato pra gente dividir e rir de nós mesmos, como faziamos antes. Antes de eu te deixar. Antes de eu chorar. Antes de ontem de manhã. Quanto você partiu sem me dar tchau…

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